Terrea

Atelie SAO

O efeito das poéticas reunidas no cubo-nada-branco do espaço São

por Fernando Boppré

Um grupo de artistas expondo em meio a outro grupo de artistas. Paredes de uma antiga gráfica ocupadas com obras de arte. Encontros semanais que culminam em uma exposição chamada “Térrea”, a reunir Amanda de Stéfani, Ana Amélia Brasileiro, Ana Blumer, Ciça Callegari, Chris Ameln, Esther Bonder, Janaína Corá, Paulo Lobo, Rafael Vogt Maia Rosa, René Cardillo, Rose Klabin, Seth Wulsin e Valéria Oliveira Santos.
Há um certo heroísmo (no sentido da insistência de paixão) no desejo e resiliência destas(es) 13 artistas em manterem reuniões semanais para se falar sobre poéticas, estimular processos artísticos, imaginar uma exposição e abri-la assim em agosto de 2022 – inaugurando o espaço expositivo do Ateliê São, no Cambuci, em São Paulo. Dois meses antes das eleições em que a permanência do neofascismo na Presidência da República ameaça a existência dos seres, das palavras e das coisas no Brasil, ampliando “o espectro do chumbo” e “o dedo da morte [que] toca os mais inocentes e vulneráveis”, utilizando aqui de um pequeno trecho da peça “Complexo de Oleannas”, de Rafael Vogt Maia Rosa, artista-curador catalisador dos encontros.
Pois bem, vamos aproveitar a deixa e começar com “Coiso”, de Ciça Callegari. A cabine do elevador de carga desativado serve como uma espécie de confessionário. Lá você tem que se ajoelhar no genuflexório e se olhar em um espelho capaz de produzir uma imagem perturbadora: há um pouco de um ser diabólico em você também. A sineta instalada no confessionário, daquelas que você bate com a palma da mão e faz pimmmmm, confere ironicamente uma dimensão comercial à religião professada ali, sem falar no bronze utilizado para a fundição do molde do Coiso.
Por outro lado, há também um Olimpo em exposição. Amanda de Stéfani adota como ponto de partida uma embalagem de aparelho eletroeletrônica apropriada como base para a sua maquete. Ao invés de projetar algo, surge uma imagem da acumulação simbólica da contemporaneidade: monte com santos e perfumes, uns ao lado dos outros, a nos encararem enclausurados sob o acrílico. Não longe dali, uma outra base, da mesma artista, expõe flores secas, como que ilhadas, é uma das ilhas que no seu mapa de criação se chama Florinda.
Aliás a exposição, no andar superior, abriga uma mapoteca, com outros trabalhos deste grupo de artistas. Neste mobiliário, ao se puxar as gavetas – originalmente projetadas para receber mapas, mas apropriado pelos museus de arte e artistas para a guarda de acervo – René Cardillo inventa seu “Mapa do fim do mundo”. Uma série de pranchas com imagens de mapas contemporâneos e pretéritos, deste planeta e de outros corpos celestes, que são mesclados como quando se adiciona outras cores em uma lata de tinta branca. A interferência do artista nesta cartografia apocalíptica conduz o olhar e o pensamento pelas veredas do Antropoceno em um desafio ao pensamento e à visualidade.
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É interessante vagar pelo espaço expositivo de “Térrea” livremente, como “a aranha que tece teias” e o “peixe [que] beija e morde o que vê”, utilizando-se da sugestão de Paulo Leminski. Eu perambulei assim e percebi a conjunção de alguns temas, tão caros ao viver junto atual: a presença de trabalhos espiritualizados, de lances comprometidos com a memória e com a ruína, a participação de elementos provindos das espécies companheiras e um grito evidentemente político pela sobrevivência.

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Paulo Lobo ocupa um amplo espaço vertical com um híbrido de onça e tubarão. Na teoria da arte, muito já se falou em escultura em campo estendido; para se pensar a produção de Paulo, preciso seria imaginar a pintura no espaço estendido. Ela pode interagir com o vento, flutuar feito alga, servir como um portal. Imensas massas de cor e grafismos alongando-se pelo espaço. Em uma das obras em exposição, a sugestão de corpos de espécies companheiras: “Tubarão onça”. Vale destacar ainda outro trabalho, quase um oximoro em relação a esta imensa pintura instalada. É presença ínfima, uma escultura vocálica chamada “ão”. O vazio da parte interna da boca ao pronunciar, de uma vez, os fonemas /ã/ e /o/, transforma-se em objeto escultórico de alginato. Um prato cheio para a poesia.
Os animais estão onipresentes nesta exposição, uma conexão com a vida (não necessariamente a humana; e isto é louvável) se abre no áudio encaixotado de Seth Wulsin, como se a visualidade submergisse em detrimento ao auditivo. E também no fino trabalho de porcelana de Valéria Oliveira Santos que remete à pele das serpentes, dispostas em sequência, emaranhadas, sobre uma caixa de luz. O ritual das serpentes reatualizado, novamente inscrito na história da arte ou da antropologia (Aby Warburg ao analisar a sobrevivência e a repetição da forma das serpentes ao longo da história da humanidade não fazia muita distinção entre o que era arte e o que era etnografia, entre a Vênus de Botticelli e o ritual dos índios Hopi), é proposto pela artista em um labor delicadíssimo.
A imanência da pintura também está presente em Térrea. Um núcleo de artistas maneja o pincel sobre a tela e, curiosamente, aproxima-se de uma dimensão mais espiritual da obra de arte. As paisagens de Esther Bonder conseguem captar a sabedoria das plantas, numa entrega radical ao pensamento vegetal no campo pictórico. As imagens remetem a um estado natural idílico onde a presença humana dá lugar a onipresença da mata, das águas e do céu, suscitando uma quietude contemplativa.
Ana Amélia Brasileiro chacoalha as paisagens ao se autorretratar em meio à natureza, inserindo elementos humanos e mentais na composição. Em meios às rochas, árvores, montes e águas, seu corpo – e seu olhar quase sempre inquiridor, apontado para fora da tela, em direção a quem vê – é o índice da linguagem, um constructo que abala e reposiciona a compreensão existencial e psíquica.
Janaína Corá faz da vassoura um largo pincel. Apresenta duas pinturas de grandes dimensões elaboradas a partir de uma pesquisa histórica e antropológica que remete às origens dos clichês sobre as bruxas, incluindo a ideia de que elas voavam sobre vassouras – imagens que provêm das fabulosas narrativas renascentistas do Novo Mundo americano e pelo desentendimento do europeu em relação ao corpo e ao modo de vida indígena. Uma delas, pertencente à série “Varreduras” é exposta sem chassi ou moldura, como uma pele a secar grosseiramente sobre nossas cabeças. O que se vê são vigorosas massas de cor vermelhas fixadas e escorridas sobre a tela. Por um lado, vestígio abstrato da violência patriarcal e, por outro, demonstração feminina da capacidade de ressignificar narrativas e lutar pela sobrevivência.
A pintura se apresenta também nas aquarelas, deslumbrantes, de Ana Blumer e, cezaneannas, de Rafael Vogt Maia Rosa. Ana nos mostra horizontes aquosos e terrosos em uma rara demonstração de intensidade obtida a partir do uso arrojado da técnica da aquarela. O resultado são imagens transcendentais e espiritualizadas, de um sentimento próximo ao sublime. Rafael, por sua vez, faz nosso olhar tremular em um jogo sofisticadíssimo que passa pela compreensão do aparelho óptico perante a variação cromática tão sutil e poderosa da aquarela.
Voltando ao território da escultura, há um trabalho preciso e de uma beleza matemática de Chris Ameln. “Fio” se localiza em uma das esquinas do espaço retangular, com pé direito alto, que recebe a exposição. Um cabo suspende uma haste de cobre que antes de tocar o chão se contém e se transforma, como num lance alquímico, em limalha de ferro inspirada por um ímã. Chris observou no cotidiano a estrutura de um para-raios e a transmutou em obra de arte, juntando os elementos com os quais trabalha (limalha de ferro, imãs), trazendo para a exposição a sugestão de forças tão potentes como o metal e a verticalidade do relâmpago.
Corpos grandes sonolentos, carnais (de mármore reconstituído!) expostos em um anticlímax da escultura, ou seja, negando a tradicional necessidade de pedestais ou bases, apresentando-as ao rés do chão, brotando de sucata industrial. Este é o trabalho de Rose Klabin, exposto ao fundo da sala: estas duas figuras humanas singulares e nuas, precisam de sossego. Seres que poderiam ser divinos ou míticos mas que estão ocupados com seus corpos e resíduos, em uma modelagem escultural precisa.
Artistas que vivem e trabalham em São Paulo, Santa Catarina, Curitiba, Minas Gerais, Nova Iorque. Poéticas contemporâneas que adotaram a palavra “Térrea” (assim mesmo no feminino), como se imaginassem um mundo mais horizontal, menos verticalizado e patriarcal. Uma exposição que é um delírio e o esboço para uma teoria inacabada: este grupo inventou neste antigo chão de fábrica um repertório de variações poéticas que permite voos livres sem deixar de lado a ética com a terra e com os seres que sobre ela habitam.

28 de agosto de 2022.